A Cozinha Sem Medo é um projeto de famílias que estão na luta pela moradia, mas que viram as possibilidades das conquistas dificultadas devido a situação política do país.


O Bairro de Santa Luzia - São Gonçalo é muito pobre, muitas pessoas moram nas ruas, e mesmo quem tem um lugar pra alugar muitas vezes não consegue comer carne todos os dias da semana, ou mesmo diversificar a comida. O Bairro também ficou célebre (infelizmente) pois foi lá onde o batalhão da corrupção foi preso, com fotos de vários criminosos sentados ao lado do DPO da praça. Ficaram também famosas imagens de ruas fechadas por barricadas do tráfico. Ou seja, é um lugar de muita dureza para as famílias.


Já há alguns anos com ajuda do MTST - Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, as famílias tentam conquistar alguns direitos básicos. Já há 2 anos, por decisão da comissão de mulheres que se reunia periodicamente, decidiram criar a Cozinha Sem Medo da Crise.


Muita gente estava sem emprego, a situação de fome estava se agravando. Decidimos pegar o pouco que tinhamos, e o pouco que conseguiamos de doação e organizar coletivamente para melhorar a vida de nosso bairro. Desde então, aos domingos fazemos um almoço coletivo e solidário para quem mais precisa. O funcionamento é simples: conseguimos um fogão doado, um conjunto de mesas e cadeiras, e um salão da associação de moradores - utilizamos ele pois terminamos a limpeza das festas que ocorrem aos sábados - com apoio de sindicatos, grupos de profissionais liberais, ONGs e mesmo da universidade, compramos alimentos e fazemos um almoço, nós mesmas, para nossas amigas e vizinhas. Já é uma tradição do Bairro, todo domingo, pelo menos 100 pessoas vão lá almoçar conosco.


Além disso, o projeto também leva pessoas para fazer cursos, ou atividades. Por exemplo uma oficina de direitos sociais para familiares de internos do sistema prisional. Ou uma roda de gestantes que se reúne periodicamente, ajuda na orientação e acompanhamento, na aceitação das famílias que as vezes está contrariada com a gravidez, e faz um chá de bebê coletivo com doação de fraldas e outros artigos todo semestre.


Em 2018 o alimento foi conseguido principalmente a partir de um crowdfunding. Esse ano queremos manter e ampliar. Já tem outros parceiros querendo propor atividades. Estamos pensando até em pedir mais dias na semana para a associação! Também queremos ajudar a comunidade no rateio da reforma, que vai melhorar as condições de armazenamento e também o calor e a beleza do lugar!


Além disso, a crise bateu ainda mais forte. Temos chances de fazer as pessoas da cozinha aumentarem, e uma vontade de fazer isso virar renda. Vamos manter o projeto social de enfrentamento a fome e garantia de soberania alimentar e nutricional, mas porque não conseguir um trabalho a partir disso. Vamos buscar produtores da agricultura familiar, para podermos comprar melhores alimentos, vamos buscar cursos e outros projetos e empresas que já tenham experiência em fazer cozinha desde a periferia, e queremos colocar a cozinha a disposição de eventos, bem como vender marmitas. É um ciclo virtuoso e positivo!


O povo organizado, coletivamente não tem medo da crise!